terça-feira, 26 de outubro de 2010

Mar

A felicidade completa e calma não combina comigo. Eu gosto de me machucar, sinto prazer na dor. Todos as cicatrizes que carrego hoje são tratadas com respeito, quase admiração. Elas me lembram o que fui capaz de suportar, me lembram o caminho, o passado, o quanto eu lutei pra ser o que sou hoje: forte.

Às vezes, sinto falta de nadar nesse mar revolto. A água que invadia minhas narinas a cada respiração, o vento que me levava pra todas as direções possíveis, mas nunca para o lugar certo... Até mesmo das vezes em que meu corpo batia contra pedras de todos os tipos, todas indiferentes à minha dor. Acho que foram essas mesmas pedras que calejaram meus músculos, enrijeceram minha pele, fizeram de mim uma garota durona.

Agora eu apenas observo calada àqueles que caem sozinhos nas mesmas águas nas quais um dia eu estive. Será que os invejo? Será que invejo a capacidade que eles tem de sentir algo tão intensamente? A vida os joga de um lado pro outro e a cada batida faz doer mais forte, até que um dia você se acostuma a estar sempre no limite. Eu estive lá muitas vezes. O limite foi meu lar por muito tempo. Mas um dia isso acabou e eu fui premiada com uma vida tranqüila, uma vida feliz. Garota sortuda!

Eu fico à margem, sempre molhando os pés naquela água agitada, fechando os olhos e sentido o cheiro das minhas próprias lágrimas, todas tão longes que nem podem ser vistas daqui... Eu aprendi a nadar, mas a vontade de me deixar ser engolida, imóvel, por aquele mar ainda permanece.

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